Aprendendo com Orquestras

Neste último mês tive o privilégio e a oportunidade de poder assistir vários espatáculos musicais. O primeiro deles no Rio Folle Journée: Harmonia dos Povos, na Sala Cecília Meireles: um duo francês de piano e violoncelo, respectivamente Brigitte Demarquette e Henri Engerer, outros dois no domingo, um pela manhã, no Theatro Municipal: com Nelson Freire ao piano, Orquestra Sinfônica Nacional, Coral Ensamble – UFRJ e Lidia Amadio na Regência, e outro, no fim da tarde, também na Sala Cecília Mereiles, onde tocou um duo de piano, composto por pianistas brasileiros: Sylvia Thereza e Nivaldo Tavares.

Assistir à Orquestra Nacional emocionou, não apenas pela música, mas por muitas consonâncias, dentre as quais a de compreender que a composição para orquestra é o legado de músicos extremamente generosos, que compuseram selecionando e enaltecendo a beleza de cada um dos instrumentos escolhidos, individualmente, passando pelos naipes – família de instrumentos - até abrangerem todo o conjunto da orquestra; a impecável regência e ainda, o talento de cada um daqueles músicos que ali estavam.

Esta experiência me fez retomar as memórias de minhas aulas de balé clássico com o professor Emanuel Elias e um maestro pianista, dos quais tive o privilégio de ser aluna – de ver, de ouvir, sobre postura, dança, sobre contagem de ritmo, sobre música, sobre o balé, dentre tantas outras coisas. Conto isto pois, talvez, seja daí a lembrança das primeiras e principais aulas de música, tidas durante alguns anos, e porque tenha assim compreendido empiricamente o que significa pertencer e ocupar uma posição no campo do saber da música, através da dança.

Outras oportunas situações têm me levado a ouvir música orquestrada com belíssimos arranjos, das quais o convívio com uma das integrantes da Orquestra Lunar – composta apenas por mulheres -, da qual assisti ao show algumas vezes: uma no Estudantina, outra no Democráticos – onde dancei a noite toda -, e a última delas no bar Belmiro, em Botafogo; e outra, a Orquestra Imperial assistida e dançada no show de lançamento de seu CD, no Teatro Rival (onde brevemente a Orquestra Lunar também fará um show de lançamento do CD - ambas com patrocínio BR).

Quanto ao arranjo da Orquestra Imperial, o que surpreende e se destaca é o modo como se relacionam formalmente os instrumentos que compõem a orquestra, incluindo desde cuíca, passando por baixo, guitarra elétrica, bateria, percussão, metais, teclado, passando por instrumentos inventados com um rádio fora de sintonia ligado à um computador de última geração.

Das observações formais: todas as orquestras assistidas são compostas por músicos de diferentes faixas etárias e com um rigor técnico admirável. Das observações estéticas: nas apresentações tocadas em salas de espetáculos, o figurino é de gala ou esporte fino – lembram disso?. Entendo que o traje diz respeito a determinados comportamentos associados ao lugar e à época, tratando, também daquilo que, de certo modo, se perde ou se conserva ao longo do tempo na história, ou ainda como aquilo que conhecemos sob o nome de tradição.

E, a respeito do figurino da Orquestra Imperial, observei que os músicos trajavam-se como personagens, daqueles que povoam nosso imaginário e/ ou de algum modo nos serviram, em algum momento de nossas vidas, como referência. O instigante era que como num filme de época, os personagens que compunham a cena eram de épocas diferentes e no entanto estavam num mesmo palco, e isso mais do que aparentemente um aspecto de globalização diz respeito à individualidade e à diferença de cada dos componentes que pertence à totalidade da orquestra.

No caso das duas cantoras, elas estavam vestidas como aquelas divas glamourosas das orquestras antigas (década de 1920-30 – com vestidos longos, dourados, de paetês ou algo semelhante – daquele tempo em que a beleza era admirada também através do talento, e não da beleza, apenas. Alguns cantores tinham bigodes falsos, como aqueles personagens do video-clip da música Sabottage dos Beast Boys (?) ou mesmo dos filmes de Tarantino, e usavam desde terninhos com palmeiras à camisas listradas e blazers de elanca ou de qualquer outro tecido sintético – bem anos 1970.

Não coincidentemente havia pego emprestado com meu vizinho, um livro: Modinha, Raízes da Música do Povo, editado e publicado em 1985, como projeto cultural das Empresas Dow Química (reconhecendo a referência e importância da existência de projetos culturais consistentes). Ao ler o livro, tudo o que eu havia intuído sobre a importância da história da música em nosso país, fez mais do que sentido, e estava ali fartamente documentado e ilustrado.

Das partituras aos coretos e teatros, aponta para o encontro da música com a rua, afirmando a certeza de que das coisas propiciadas pela música, o encontro com o outro é certamente uma delas, do espaço privado ao ar livre, e daquelas fundamentais e atemporais, que não apenas podem, mas por serem essenciais, devem ser mantidas e desnaturalizadas, pois tocar, assim como dançar, são aprendizados.

Quanto ao livro Modinha, este iluminou que, do mesmo modo que assistir às Orquestras Lunar e Imperial numa mesma semana, que a Música, ao se popularizar toma a dimensão do cotidiano, e não ao acaso toda a cultura musical brasileira e estrangeira “importada” ao passarem pelas rádios, clubes, bailes, coretos da cidade grande ao interior incluem a dança, ampliando o sentido de pertencimento para além do lugar, situando historicamente cada um de seus participantes.

Outra de minhas memórias e aulas sobre música, dança e modo de vida vem da lembrança de meus pais dançando na sala de casa, e eu e meus irmãos assistindo, ouvindo e aprendendo. Campeões de dança, lá no clube do interior da época de jovem deles, tinham uma seleção de músicas orquestradas: com boleros, sambinhas e valsas.

Espero, sinceramente, que esta moda pegue, mais do que moda, modo de vida. A amplitude da convivência com este tipo de ambiente – musical e dançante -, é imensurável, mas certamente propulsora de delicadeza e de muito amor, pelo outro, pelas artes e pela vida, pois acredito que somos, também, aquilo que aprendemos a ouvir e a expressar.

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