domingo, 24 de junho de 2007

Música, filmes e vida

Ou seria "Filmes, música e vida", ou "A importância da música na vida e nos filmes ou A música: trilha para a vida e para filmes"?

Brincadeira de temas à parte, vale a pena assistir o filme Atravessando uma Ponte, filme que se passa em Istambul..., produzido por um músico alemão...e que assisti no Artepelx Unibanco, no Rio.

Lindo, lindo, lindo muitas vezes..
O filme não é somente sobre música, mas sobre uma das Artes capazes de "tocar" a alma das pessoas e sobre o quanto é importante respeitar as diferenças, seja sobre o que for. Creio que a diferença é aquilo que nos faz ser...

Orientação

Se tem uma coisa que tenho aprendido é que só a experiência do livre pensar, exercitado dia-a-dia, permite a expressão, seja por meio da palavra ou através dos atos.

Uma frase que escutei certa vez e que marcou profundamente minha vida é que a liberdade não é fazer o que se quer, mas aquilo que tem que ser feito. Ela funcionou como uma espécie de guia, mesmo que por vezes eu discorde dela.

Creio que o fato de discordarmos das coisas ou simplesmente o de as questionar é que move nosso pensamento sobre o modo como compreendemos as coisas..., "esconjurando o medo da crítica", como escreve Bourdieu - autor francês, sociólogo.

Se nos calamos apenas por que não queremos ser questionados, então para que serve a palavra ou o pensamento?

Este autor aponta também para a importância do reconhecimento das referências em nossas vidas e das orientações que guiam nosso pensamento para determinadas questões, posturas, condutas, enfim, as ações, como decisões realizadas através da escolha somadas ao risco de se expor. Ele afirma ainda que somente podemos "liquidar" os erros se nos posicionamos, se agimos.

Ficar calado assitindo o mundo é muito menos do que podemos, já que o pensamento, assim como a vida é em ação. Só o movimento do corpo somado ao do pensamento, expressos, é que dão sentido às coisas que dizem respeito à nossa vida, já diziam Nietsche, Sartre, Lefebvre, Hannah Arendt entre outros.

As primeiras orientações sobre o modo de compreender o mundo vieram de dentro de casa, da sabedoria de minhas Avós e avôs, mãe, pai, tios, primos, cada um com suas experiências de vida.

Posteriormente uma série de mestres - aos quais agradeço profundamente-, através de suas condutas e pensamentos me ensinaram a escolher tanto o que eu almejava ser, até aquilo que eu considerava terrível como conduta. Mesmo aqueles dos quais eu discordo balizam minhas escolhas. Os parâmetros são imprescindíveis e sem dúvida contribuem para nossa própria experiência de vida.

Se orientar e ser orientado são também aprendizados, construídos à partir de nossa sensibilidade e atenção para as coisas que acontecem "extra-ordinariamente" cotidianamente em nossas vidas.

Escolhi me posicionar no mundo e não pretendo me calar.

Escolhi também o caminho do amor por mim e pelo outro, sem ter medo de me expressar...

Aprendendo com Orquestras

Neste último mês tive o privilégio e a oportunidade de poder assistir vários espatáculos musicais. O primeiro deles no Rio Folle Journée: Harmonia dos Povos, na Sala Cecília Meireles: um duo francês de piano e violoncelo, respectivamente Brigitte Demarquette e Henri Engerer, outros dois no domingo, um pela manhã, no Theatro Municipal: com Nelson Freire ao piano, Orquestra Sinfônica Nacional, Coral Ensamble – UFRJ e Lidia Amadio na Regência, e outro, no fim da tarde, também na Sala Cecília Mereiles, onde tocou um duo de piano, composto por pianistas brasileiros: Sylvia Thereza e Nivaldo Tavares.

Assistir à Orquestra Nacional emocionou, não apenas pela música, mas por muitas consonâncias, dentre as quais a de compreender que a composição para orquestra é o legado de músicos extremamente generosos, que compuseram selecionando e enaltecendo a beleza de cada um dos instrumentos escolhidos, individualmente, passando pelos naipes – família de instrumentos - até abrangerem todo o conjunto da orquestra; a impecável regência e ainda, o talento de cada um daqueles músicos que ali estavam.

Esta experiência me fez retomar as memórias de minhas aulas de balé clássico com o professor Emanuel Elias e um maestro pianista, dos quais tive o privilégio de ser aluna – de ver, de ouvir, sobre postura, dança, sobre contagem de ritmo, sobre música, sobre o balé, dentre tantas outras coisas. Conto isto pois, talvez, seja daí a lembrança das primeiras e principais aulas de música, tidas durante alguns anos, e porque tenha assim compreendido empiricamente o que significa pertencer e ocupar uma posição no campo do saber da música, através da dança.

Outras oportunas situações têm me levado a ouvir música orquestrada com belíssimos arranjos, das quais o convívio com uma das integrantes da Orquestra Lunar – composta apenas por mulheres -, da qual assisti ao show algumas vezes: uma no Estudantina, outra no Democráticos – onde dancei a noite toda -, e a última delas no bar Belmiro, em Botafogo; e outra, a Orquestra Imperial assistida e dançada no show de lançamento de seu CD, no Teatro Rival (onde brevemente a Orquestra Lunar também fará um show de lançamento do CD - ambas com patrocínio BR).

Quanto ao arranjo da Orquestra Imperial, o que surpreende e se destaca é o modo como se relacionam formalmente os instrumentos que compõem a orquestra, incluindo desde cuíca, passando por baixo, guitarra elétrica, bateria, percussão, metais, teclado, passando por instrumentos inventados com um rádio fora de sintonia ligado à um computador de última geração.

Das observações formais: todas as orquestras assistidas são compostas por músicos de diferentes faixas etárias e com um rigor técnico admirável. Das observações estéticas: nas apresentações tocadas em salas de espetáculos, o figurino é de gala ou esporte fino – lembram disso?. Entendo que o traje diz respeito a determinados comportamentos associados ao lugar e à época, tratando, também daquilo que, de certo modo, se perde ou se conserva ao longo do tempo na história, ou ainda como aquilo que conhecemos sob o nome de tradição.

E, a respeito do figurino da Orquestra Imperial, observei que os músicos trajavam-se como personagens, daqueles que povoam nosso imaginário e/ ou de algum modo nos serviram, em algum momento de nossas vidas, como referência. O instigante era que como num filme de época, os personagens que compunham a cena eram de épocas diferentes e no entanto estavam num mesmo palco, e isso mais do que aparentemente um aspecto de globalização diz respeito à individualidade e à diferença de cada dos componentes que pertence à totalidade da orquestra.

No caso das duas cantoras, elas estavam vestidas como aquelas divas glamourosas das orquestras antigas (década de 1920-30 – com vestidos longos, dourados, de paetês ou algo semelhante – daquele tempo em que a beleza era admirada também através do talento, e não da beleza, apenas. Alguns cantores tinham bigodes falsos, como aqueles personagens do video-clip da música Sabottage dos Beast Boys (?) ou mesmo dos filmes de Tarantino, e usavam desde terninhos com palmeiras à camisas listradas e blazers de elanca ou de qualquer outro tecido sintético – bem anos 1970.

Não coincidentemente havia pego emprestado com meu vizinho, um livro: Modinha, Raízes da Música do Povo, editado e publicado em 1985, como projeto cultural das Empresas Dow Química (reconhecendo a referência e importância da existência de projetos culturais consistentes). Ao ler o livro, tudo o que eu havia intuído sobre a importância da história da música em nosso país, fez mais do que sentido, e estava ali fartamente documentado e ilustrado.

Das partituras aos coretos e teatros, aponta para o encontro da música com a rua, afirmando a certeza de que das coisas propiciadas pela música, o encontro com o outro é certamente uma delas, do espaço privado ao ar livre, e daquelas fundamentais e atemporais, que não apenas podem, mas por serem essenciais, devem ser mantidas e desnaturalizadas, pois tocar, assim como dançar, são aprendizados.

Quanto ao livro Modinha, este iluminou que, do mesmo modo que assistir às Orquestras Lunar e Imperial numa mesma semana, que a Música, ao se popularizar toma a dimensão do cotidiano, e não ao acaso toda a cultura musical brasileira e estrangeira “importada” ao passarem pelas rádios, clubes, bailes, coretos da cidade grande ao interior incluem a dança, ampliando o sentido de pertencimento para além do lugar, situando historicamente cada um de seus participantes.

Outra de minhas memórias e aulas sobre música, dança e modo de vida vem da lembrança de meus pais dançando na sala de casa, e eu e meus irmãos assistindo, ouvindo e aprendendo. Campeões de dança, lá no clube do interior da época de jovem deles, tinham uma seleção de músicas orquestradas: com boleros, sambinhas e valsas.

Espero, sinceramente, que esta moda pegue, mais do que moda, modo de vida. A amplitude da convivência com este tipo de ambiente – musical e dançante -, é imensurável, mas certamente propulsora de delicadeza e de muito amor, pelo outro, pelas artes e pela vida, pois acredito que somos, também, aquilo que aprendemos a ouvir e a expressar.